Já lhe ocorreu que suas escolhas muitas vezes contrariam as suas próprias convicções e valores? Isso acontece principalmente com indivíduos de personalidade fraca, que se deixam levar facilmente por cobranças externas, muitas vezes somente por receio de não serem aceitos pelo grupo a que pertencem. O impulso que está na base dessa fraqueza tem um nome: viés de pertencimento.
Tudo começa com a nossa necessidade básica de aceitação. Todos nós temos a tendência a concordar mais com quem compartilha nossos valores, aparências ou opiniões. Somos levados naturalmente a julgar favoravelmente o "nosso" grupo enquanto desenvolvemos desconfiança ou estereótipos negativos contra quem está "de fora".
O problema dessas adesões levadas pelo sentimento e não pela razão pura, é que nem sempre estamos do lado justo da questão. Os contextos extremos, costumam nos levar ao "viés de manada", onde indivíduos seguem tendências apenas para evitar o isolamento, sem questionar se elas têm valor legítimo.
O próximo passo depois disso, quase sempre ladeira abaixo, é assumir a defesa cega de decisões de um partido ou líder, ignorando erros que seriam duramente criticados no rival. É cada vez mais comum, por exemplo, identificarmos a formação de "panelinhas" que excluem quem se veste ou pensa diferente, afetando o aprendizado.
Famílas estão divididas hoje, simplesmente porque um determinado parente anunciou seu voto em um candidato à Presidência da República, que alguns dos seus familiares consideram inaceitável.
Outra ocorrência comum, é observarmos pessoas participando de manifestações contra isso ou aquilo, sem nem saberem direito os detalhes do comportamento que estão combatendo. è assim que muitas pessoas caem na armadilha do duplipensar, alimentando ideologias conflitantes sem perceberem.
Esse é o caso daquele seu amigo que defente a pauta LGBT e, ao mesmo tempo, sem notar a enorme contradição, segura um cartaz na manifestação universitária apoiando o Hamas, um grupo terrorista que elimina homossexuais por princípio. Quando você pergunta a motivção que o levou até ali ele responde: O Hamas é contra os EUA e os meu professor explicou que estamos lutando contra o imperialismo. Mal sabe ele que o professor também está preso na caixinha da idologia.
Esses indivíduos não sabem, mas são altamente manipuláveis. Enquano eles brigam aqui embaixo por causas que nem conhecem a fundo, grupos interessados na obtenção e na manutenção do poder, da esquerda e da direita, reforçam a polarização. Com isso esses manipuladores marcam dois pontos: enfraquecem a unidade social, tornando a comunidade mais vulnerável, e ganham uma legião de adepos incapazes de questionar os seus erros.
Para escapar do viés de pertencimento, você precisa treinar o cérebro para desacelerar e questionar decisões automáticas. Antes de concordar com uma opinião em grupo, pergunte-se: "Eu realmente penso assim ou só quero que gostem de mim?".
Para sair da bolha em que está mergulhado experimente consumir canais de notícias, livros ou influenciadores que defendam o oposto do que você acredita. Isso no início pode lhe provocar repulsa, mas no médio prazo contribuirá para que amplie os seus pontos de vista.
O processo é doloroso porque mexe diretamente com o nosso instinto de sobrevivência.Biologicamente, o cérebro humano associa a rejeição social e o isolamento à dor física. Romper com o viés de pertencimento dói pelos seguintes motivos:
- Questionar o grupo pode fazer você se sentir isolado, mesmo cercado de pessoas.
- Existe o risco real de ser criticado, rotulado ou excluído temporariamente por amigos ou colegas.
- Exige esforço consciente constante, o que gera cansaço psicológico.
Se você quer sair da caixa mas não tem coragem, existem algumas estratégias que podem ajudá-lo. Uma delas é não revelar todas as suas opiniões divergentes de uma só vez, escolha apenas uma pequena opinião ou hábito para questionar no início.
Além disso, sempre que possível, busque pessoas que valorizam o debate saudável e a individualidade. Lembre-se de que a liberdade de decidir por si mesmo compensa o desconforto inicial. O incômodo é temporário, mas os benefícios de romper com esse viés são permanentes e transformadores para a sua vida.