Os mais velhos devem ter notado que nas última copas do mundo o entusiamo dos torcedores brasileiros tem diminuido paulatinamente. A Copa deste ano, disputada nos Estados Unidos, causou uma mobilização tão discreta na população, que tem muita gente que nem sabe escalação do esquadrão nacional, coisa que qualquer torcedor de 1982 saberia sem pestanejar.
Mas quais seria os motivos desse desineresse crescente por um evento que eliminava diferenças e já foi um dos grandes símbolos de união nacional?
O desinteresse do brasileiro pela Copa do Mundo reflete a falta de identificação com a atualgeração de jogadores, a ausência de proagonismo da Seleção e a descrença na conquista da Copa. A crise econômica e apolarização também contribuiu para afastar o clima de festa que tradicionalmente parava o país.
Os principais fatores que explicam esse fenômeno incluem:
- Ceticismo com a Seleção: Pesquisas indicam que a maioria da população não acredita no título, registrando um dos menores índices de otimismo da história.
- Distanciamento dos Ídolos: Há uma percepção de que os jogadores atuais possuem um perfil distante do público, voltado para a ostentação e com dificuldade de replicar o sucesso dos clubes europeus na Seleção Brasileira.
- Fatores Socioeconômicos e Políticos: A camisa da Seleção foi alvo de forte apropriação política nos últimos anos, gerando rejeição por parte de quem não quer se associar a discussões partidárias. Além disso, crises financeiras e prioridades cotidianas substituíram o fervor nacionalista.
- Mudança nos Hábitos de Consumo: O torcedor moderno tem consumido o esporte de forma mais pontual e conveniente, longe do ufanismo ou da necessidade de parar o trabalho e fechar ruas para acompanhar os jogos.
A politização que gerou a polarização não aconteceu só no futebol. Nos últimos anos, a polarização política no Brasil transformou temas cotidianos, científicos e culturais em verdadeiros campos de batalha ideológica. Assuntos que antes eram consensuais ou puramente técnicos passaram a ser discutidos sob a ótica de "esquerda versus direita".
A imunização e a eficácia de tratamentos médicos tornaram-se bandeiras políticas, dividindo a população sobre a obrigatoriedade de vacinas e a autonomia médica. Medidas sanitárias básicas de controle de epidemias foram frequentemente debatidas como decisões de interferência estatal ou de liberdade individual.
As decisões do poder judiciário e a regulação de plataformas digitais transformaram as cortes em alvos centrais de debates políticos e manifestações. O verde e amarelo e a própria bandeira do Brasil foram amplamente adotados por correntes políticas específicas, gerando debates sobre o significado do patriotismo. O papel constitucional do Exército, Marinha e Aeronáutica passou a ser interpretado por diferentes grupos como alinhamento político ou garantia de ordem institucional.
Discussões sobre direitos civis, diversidade e novos modelos de família tornaram-se eixos centrais de disputas legislativas e discursos eleitorais. A fé cristã e os valores religiosos foram fortemente integrados a plataformas de partidos, dividindo correntes e lideranças religiosas no espectro político. Debates sobre o conteúdo didático de livros escolares, educação sexual e o modelo de "Escola sem Partido" pautaram reuniões de pais e votações em câmaras municipais.
Poderíamos fazer aqui uma lista enorme de assuntos que provocam rachaduras sociais e conflitos intermináveis e aparentemente irreconciliáveis. As pessoas respondem antes usando o instinto de pertencimento do que a razão. A pergunta que fica para a reflexão é: Quem ganha com isso? A quem interessa dividir a sociedade para enfraquecê-la? Na resposta a esta pergunta talvez esteja a luz que possa nos dá a pista sobre o caminho de volta para a unidade nacional.